quinta-feira, 6 de abril de 2006

Soltas

O Governo quer diminuir a taxa de alcoolemia permitida no sangue.
Mais uma vez, o PS acha que os portugueses são uma cambada de alcoólicos incorrigíveis. E um Secretário de Estado não ousou criticar o sector vinhateiro.
No tempo de Guterres, tiveram de recuar e agora, prevejo eu, voltarão a fazer marcha-atrás.
Aliás, este é o Governo da marcha-atrás. Anuncia medidas mas, logo de seguida, para serenar os corporativismos, alguém surge a dizer que não será bem assim.
Em quase tudo, os portugueses já perceberam que na propaganda são bons profissionais mas, na hora de implementar, são como todos: receosos e sem força.
Vou dar-vos um exemplo com recurso a um brilhante texto retirado do Impertinências, no dia 4 deste mês:
"Como pode o ministro Teixeira dos Santos ufanar-se com as contas de 2005 em que as despesas da administração pública foram superiores em 1.331,4 milhões ao estimado pelo doutor Vítor Constâncio, que as tinha estimado com o pressuposto de não serem tomadas medidas de consolidação. Que medidas de consolidação foram essas que aumentaram em mil e trezentos milhões de euros a despesa sem consolidação?
Como pôde o ministro Vieira da Silva ter apresentado um relatório sobre a sustentabilidade da Segurança Social onde se diagnostica que ceteris paribus o sistema entra em desequilíbrio financeiro em 2014, depois de ter sido ministro dum governo em que o 1.º ministro garantiu, após mais uma reforma do sistema, que teríamos garantidas as pensões para os próximos 100 anos (remember?).
Se a economia não se impressiona, quem parece impressionar-se com demasiada facilidade é o presidente da CIP, que acha «fantástica» uma reforma da administração pública em que «o único sacrifício que provavelmente vai pedir aos funcionários públicos é o da mobilidade». Quererá o engenheiro Van Zeller explicar aos ignaros como será possível ao governo «consolidar» a despesa pública quando o seu componente mais rígido e de maior peso fica na mesma? Aliás o 1.º ministro e os ministros em coro não se cansam de garantir que não só não haverá despedimentos como ninguém será prejudicado.
Há alguma coisa que eu devesse saber e ninguém me conta?"
Ou seja, é um faz que anda mas não anda, faz que faz mas não faz...
Para nosso gáudio, o PM está fora do país. Corre pela baía de Luanda, devagar ainda devido à lesão da neve. Vi a seu lado um acompanhante da comitiva que, sem calções, corria de boxers. Coitado... Ou então foi arrancado à pressa da cama para fazer a figura que todos vimos ser feita na TV.
O Diário Digital afirmava ontem que "o presidente angolano, José Eduardo dos Santos, manifestou hoje «grande prazer» por ter conhecido pessoalmente o primeiro-ministro português, manifestando-se «impressionado» com José Sócrates, com quem manteve um encontro privado no Palácio da Cidade Alta, em Luanda".
Para José Eduardo dos Santos, Sócrates terá demonstrado ser "pessoa de convicções fortes, clarividente e empenhado na busca de soluções".
Estou sintonizado com Helena Matos, no texto que escreveu no Blasfémias de ontem: "Este texto do Diário Digital é um produto genuinamente português: após uma breve conversa um dirigente estrangeiro declara-se impressionado com o nosso primeiro-ministro. Nada resiste nesta análise. A começar pelo analisador. Estas palavras ou outras quaisquer proferidas por José Eduardo dos Santos, um dos mais antigos e corruptos ditadores africanos, não são necessariamente boas para o elogiado ou para quem quer que seja".
Estou igualmente com João Miranda, do mesmo blogue, sobre a ultrapassagem do défice: "O Ministro das Finanças bem nos tentou convencer que o défice de 2005 seria um défice sem truques. Mas o que o governo fez foi inaugurar uma nova geração de truques ainda mais anetesiantes conseguindo aumentar os impostos, aumentar a cobrança, aumentar a despesa em relação a 2004, aumentar a despesa em relação à estimativa deliberadamente pessimista do Relatório Constâncio e ainda assim ver motivos para celebrar a descida do défice de 3% em 2004 para 6% em 2005. É genial".
Este país anda mesmo a dormir, anestesiado, de tal como que já ninguém parece ligar muito a estas cousas mundanas, pelo menos do lado dos media. Restam alguns analistas de referência. Felizmente.
Na Causa Liberal, acedo à versão integral do "Beyond the European Social Model", um texto da Open Europe que "pretende demonstrar que o «modelo social europeu» que assenta em impostos elevados e sobre-regulação dos mercados está a prejudicar os países europeus e propõe um novo paradigma".
Parece que a sessão de lançamento do documento será no dia 10 de Abril.
Por cá, fala-se muito do eventual encerramento do Bloco Operatório do Hospital de Abrantes. Para uns, será temporário, devido a obras, para reabrir remodelado e implicando o encerramento dos blocos de Tomar e Torres Novas.
Para outros, é uma forma encapotada de não voltar a abrir, traduzindo mais uma machadada nas aspirações do nosso Hospital.
Fala-se ainda da remodelação das Urgências, para introdução do sistema de triagem de Manchester e da criação da Unidade de Cuidados Intensivos em Abrantes, o que poderá implicar o encerramento das UCI's de Tomar e Torres Novas (UCI's distintas, porque não são de cuidados intensivos mas antes de cuidados intermédios), pelo que me contam.
Mas também me dizem que não havendo grande oferta de pneumologia, de cardiologia e da gatroenterologia em Abrantes, a UCI não se justifica aqui.
Quem sabe onde está a verdade? Onde estão os movimentos cívicos? Onde está a recentemente constituída Comissão Concelhia de Saúde e o que tem feito? E a Câmara Municipal, o que tem a dizer? E o eleito António Mor, de entre a Assembleia Municipal, que diligências tem feito?
Alguém pode garantir que não vamos continuar a perder?
O Presidente do Conselho de Administração do CHMT é de Abrantes mas terá ele força para suster o esvaziamento do nosso Hospital ou, contra aquilo que admito ser a sua vontade, ficará associado à imagem do carrasco que nos matou esta unidade hospitalar?
Vai sendo tempo de alguém falar claro, de colocar os pontos nos is, de se assumir a verdade toda.
Terá isto tudo alguma coisa a ver com limitações orçamentais e ingovernabilidade de 3 unidades separadas geograficamente por menos de 30 quilómetros entre si?
Com tudo isto, nem me dei conta de que passou mais de um ano de existência contínua neste blog...

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